Ri Happy pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas

Pedido foi apresentado à Justiça de São Paulo após mudança de controle do grupo; empresa atribui crise a juros elevados, queda nas vendas e concorrência de plataformas internacionais.


Por Rota Araguaia em 19/10/2026 às 14:59 hs

Ri Happy pede recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas
Foto: Divulgação

Redação

 

A rede de brinquedos Ri Happy e outras cinco empresas do grupo pediram recuperação extrajudicial à Justiça de São Paulo no domingo (18). O objetivo é renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. Segundo o pedido, credores que representam R$ 308,8 milhões do total já aceitaram negociar, o equivalente a 42,38% do valor incluído no plano.

No documento apresentado à Justiça, o grupo atribui as dificuldades financeiras a uma combinação de fatores, como os efeitos da pandemia de Covid-19, os juros elevados, a queda nas vendas do varejo e a concorrência de plataformas estrangeiras de comércio eletrônico.

O pedido foi apresentado pouco mais de um mês após a aquisição do grupo pela BluSun Capital, anunciada em agosto. Desde então, a empresa passou a ser liderada por Héctor Nuñez, fundador da gestora.

Procurada pelo g1, a Ri Happy afirmou que a recuperação extrajudicial faz parte de um plano de reestruturação financeira e operacional iniciado após a mudança de gestão. Segundo a companhia, as lojas físicas e os canais digitais continuam funcionando normalmente, enquanto as equipes se preparam para a Black Friday e o Natal.

O grupo informa ter mais de 2,6 mil funcionários e aproximadamente 292 lojas em operação no Brasil, entre unidades próprias das marcas Ri Happy e PBKids e franquias.

Entenda o que é recuperação extrajudicial

A recuperação extrajudicial permite que uma empresa negocie diretamente com seus credores novas condições para o pagamento de dívidas. O acordo pode prever prazos maiores e outras alterações nas condições de pagamento. O plano pode ser levado à Justiça para homologação, conforme os requisitos legais.

O que levou a Ri Happy à crise financeira?

No pedido, o grupo afirma que a pandemia prejudicou o faturamento devido ao fechamento temporário de lojas e shopping centers. A empresa também aponta os juros elevados, que aumentaram o custo das dívidas bancárias, e a perda de poder de compra dos consumidores.

Outro fator citado foi a recuperação econômica abaixo do esperado após uma renegociação de dívidas bancárias realizada em 2023. Na ocasião, a companhia renegociou cerca de R$ 292 milhões com bancos, mas, segundo o documento, os resultados esperados não se concretizaram nos anos seguintes.

A concorrência de plataformas internacionais, como Shopee e AliExpress, também é apontada como um fator de pressão sobre os resultados. De acordo com a empresa, os produtos importados continuam apresentando vantagens de preço em relação aos vendidos no mercado nacional.

O grupo cita dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) para destacar o peso dos impostos sobre produtos como bicicletas, bolas de futebol e patins. Segundo os números mencionados no pedido, os tributos representam 52,78% do preço dos patins.

O documento também relaciona a crise da companhia a dificuldades mais amplas enfrentadas pelo varejo, como a retração do consumo, o encarecimento do crédito e a pressão sobre fornecedores, prazos de pagamento e capital de giro.

Plano prevê redução de custos e reorganização

Em comunicado, o Grupo Ri Happy informou que a nova gestão está adotando medidas para melhorar a liquidez, controlar despesas e reorganizar a estrutura de capital — a forma como a empresa financia suas operações e administra suas dívidas.

Entre as medidas anunciadas estão ajustes nas equipes corporativas, mudança de sede e iniciativas para melhorar o desempenho das lojas físicas e dos canais digitais.

A companhia também afirmou que pretende fortalecer o relacionamento com clientes, funcionários, fornecedores, franqueados, shopping centers e instituições financeiras. O objetivo, segundo a empresa, é adequar os compromissos financeiros às necessidades da operação e garantir a continuidade do negócio no longo prazo.

Para o advogado e empresário Bruno Medeiros Durão, fundador da DAP Advocacia, o sucesso da recuperação dependerá da capacidade de ajustar as dívidas à geração de caixa da companhia.

Segundo ele, a recuperação extrajudicial pode ajudar a reorganizar o endividamento sem interromper as atividades, mas o pedido, por si só, não resolve os problemas financeiros. O resultado depende da viabilidade do plano, da adesão dos credores envolvidos e da capacidade de cumprir os compromissos renegociados.

O advogado também ressalta que manter as lojas abertas não significa necessariamente ter recursos suficientes para pagar todas as obrigações. Por isso, a reestruturação precisa considerar os juros, os prazos das dívidas, os custos operacionais e o capital necessário para manter o negócio funcionando.

Histórico da empresa

Fundada em São Paulo, em 1988, a Ri Happy se consolidou como uma das principais redes de brinquedos do país. Em 2012, foi adquirida pelo fundo de investimentos Carlyle Group, que também comprou a PBKids. Em agosto de 2026, o controle do grupo passou para a BluSun Capital.

A Ri Happy é a segunda grande empresa do setor de brinquedos a recorrer à Justiça para reorganizar suas dívidas em 2026. Em maio, a fabricante Estrela, conhecida por produtos como Banco Imobiliário, Autorama, Genius e Susi, entrou com pedido de recuperação judicial.

Entre os fatores apontados pela Estrela estavam os juros elevados, a dificuldade de acesso a empréstimos e as mudanças nos hábitos de consumo, com a crescente disputa pela atenção e pelos gastos dos consumidores com jogos e entretenimento digital.



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