Territórios em risco: como queimadas e invasões aumentam casos de transtornos psiquiátricos em áreas isoladas

Em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, sons comuns como passos, vozes ou visitas inesperadas podem desencadear transtorno de ansiedade. A maioria dos transtornos psicológicos está associada ao medo, que é mediado por neurotransmissores e hormônios como a noradrenalina e o cortisol.


Por Rota Araguaia em 08/08/2024 às 09:52 hs

Territórios em risco: como queimadas e invasões aumentam casos de transtornos psiquiátricos em áreas isoladas
Foto: Katngotxi Suyá

Redação

A ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) são os diagnósticos psiquiátricos mais comuns na população brasileira, conforme revelou a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). Em comunidades afastadas, como indígenas, quilombolas e ribeirinhas, a situação é ainda mais grave. As invasões territoriais e queimadas são apontadas como os principais fatores que agravam esses transtornos.

Mato Grosso, que liderou o ranking de queimadas no Brasil entre março e junho deste ano, é um exemplo alarmante desse cenário. O estado abriga uma grande concentração de comunidades indígenas e tem sido alvo frequente de madeireiros clandestinos, o que acelera o desmatamento e compromete a integridade mental dos membros das comunidades locais, segundo especialistas.

Ameaças constantes e saúde mental em risco

Em comunidades isoladas, sons comuns, como passos e vozes, podem desencadear crises de ansiedade. Esses ruídos são frequentemente associados a perigos iminentes, como incêndios ou invasões, tornando o ambiente constantemente ameaçador. De acordo com uma análise do Instituto Socioambiental (ISA), Mato Grosso está entre os estados mais afetados, com três territórios indígenas invadidos e mais de 310 hectares desmatados apenas no último ano.

10 terras indígenas mais desmatadas em 2023
Nos primeiros quatro meses de 2023, a pesquisa registrou um aumento de 28% no desmatamento em comparação ao mesmo período de 2022, quando 319,6 hectares foram desmatados nas Terras Indígenas monitoradas.
Piripkura - MT: 26,32 %Araribóia - MA : 20,32 %Munducuru - PA : 16,81 %Uru-Eu-Wau-Wau - RO: 11,92 %Alto Turiaçu - MA : 8,08 %Arara do Rio Branco - MT : 5,95 %Zoró - MT: 5,53 %Caru - MA: 3,2 %Igarapé Lourdes - RO : 1,87 %
Araribóia - MA
Terra indígena 20,32 %
Fonte: ISA
Piripkura - MT: 26,32 %Araribóia - MA : 20,32 %Munducuru - PA : 16,81 %Uru-Eu-Wau-Wau - RO: 11,92 %Alto Turiaçu - MA : 8,08 %Arara do Rio Branco - MT : 5,95 %Zoró - MT: 5,53 %Caru - MA: 3,2 %Igarapé Lourdes - RO : 1,87%erra indígena 16,81
Fonte: ISA
Uma análise do Instituto Socioambiental (ISA), mostra o quanto essa situação é mais alarmante em Mato Grosso,
onde três territórios indígenas foram invadidos e mais de 310 hectares foram desmatados no ano passado (veja gráfico acima).A

A Terra Indígena Zoró, na divisa entre Mato Grosso e Rondônia, ilustra bem essa situação. Em 2023, o desmatamento na área aumentou 88% em relação ao ano anterior, principalmente devido à mineração ilegal. Mais de 5 mil árvores foram derrubadas na região, impactando diretamente a saúde mental dos habitantes locais.

Relação entre degradação ambiental e transtornos psiquiátricos

O desmatamento em territórios indígenas no Brasil totalizou 821 hectares em 2023, destacando a vulnerabilidade dessas áreas e sua conexão direta com problemas de saúde mental. Segundo uma pesquisa do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, o medo constante, mediado por neurotransmissores como a noradrenalina e o cortisol, pode levar ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos e cardiovasculares.

O psiquiatra Rodrigo de Jesus explica que a exposição constante a situações traumáticas, como invasões e queimadas, aumenta a vulnerabilidade à ansiedade, transtornos de pânico e depressão. “A ameaça constante à subsistência e segurança torna esses problemas mais propensos a se desenvolverem, como vemos em comunidades em Mato Grosso, onde problemas ambientais e sociais afetam gravemente a saúde mental”, disse.

Desafios adicionais nas comunidades isoladas

Além das questões ambientais, outros fatores contribuem para o agravamento da saúde mental em comunidades remotas. Rodrigo destaca a escassez de profissionais de saúde mental, o uso inadequado da internet e a exposição à violência e perdas.

Katngotxi Suyá, fotógrafo do Povo Khisetje, em Querência, a 912 km de Cuiabá, exemplifica esses desafios. Com cerca de 400 habitantes, a comunidade tem acesso a apenas uma psicóloga, que precisa se deslocar do distrito até a aldeia. Além disso, o aumento dos focos de incêndio na região tem causado grande ansiedade entre os moradores.

“Estamos preocupados com os incêndios e o impacto nas nossas plantações e recursos naturais. A ansiedade é grande, porque não sabemos a proporção que o fogo pode tomar”, relatou Katngotxi.

Internet e violência: outros fatores de risco

O psicólogo Rafael Olímpio, do Hospital Universitário Júlio Müller, alerta para os riscos do uso excessivo da internet em comunidades isoladas. Embora a internet democratize o acesso a serviços e oportunidades, a exposição a conteúdos negativos pode prejudicar a saúde psicológica, especialmente quando há poucas outras atividades para ocupar a mente.

A violência também é um fator agravante. Comunidades que vivem sob constante ameaça, como as isoladas, têm uma maior incidência de TEPT, especialmente após eventos de violência e perda. “Cada caso é único, mas a combinação de predisposição genética, fatores ambientais e condições pessoais torna essas comunidades particularmente vulneráveis a transtornos mentais”, concluiu Rodrigo de Jesus.



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