Estudo alerta para avanço da resistência a antibióticos em crianças e risco de infecções sem tratamento eficaz

Pesquisa internacional aponta aumento global da resistência bacteriana e prevê cenário preocupante para a saúde infantil até 2035


Por Rota Araguaia em 22/07/2026 às 10:55 hs

Estudo alerta para avanço da resistência a antibióticos em crianças e risco de infecções sem tratamento eficaz
Reprodução

Redação

 

Um estudo internacional publicado na revista científica JAMA Pediatrics acendeu um alerta para uma das maiores ameaças à saúde pública mundial: o avanço da resistência antimicrobiana entre crianças e adolescentes. A pesquisa indica que, se a tendência atual continuar, infecções comuns poderão se tornar cada vez mais difíceis de tratar na próxima década.

O levantamento foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Pediátrica Murdoch (MCRI) e da Universidade de Sydney, na Austrália, que analisaram 106.581 amostras de infecções pediátricas coletadas em 82 países, incluindo o Brasil. Os dados abrangem o período entre 2004 e 2022 e mostram um aumento contínuo da resistência das bactérias aos antibióticos em todas as regiões do planeta.

Segundo os pesquisadores, trata-se da análise mais abrangente já realizada sobre resistência antimicrobiana na população infantil.

Resistência cresce principalmente em antibióticos de última linha

O estudo utilizou a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que divide os antibióticos em três categorias: acesso, vigilância e reserva.

Os medicamentos classificados como "reserva", utilizados como último recurso em infecções graves causadas por bactérias multirresistentes, apresentaram um dos crescimentos mais preocupantes nos índices de resistência.

Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas, a resistência aos antibióticos do grupo vigilância praticamente dobrou, passando de 15% para 33% ao longo dos 19 anos analisados. Entre crianças de até dois anos internadas em terapia intensiva, o índice saltou de 12% para 32%.

Em casos de sepse, uma das principais causas de mortalidade infantil no mundo, a resistência aumentou de 15% para 30%. Já nas infecções respiratórias, o percentual passou de 12% para 29%.

Bactérias preocupam especialistas

Entre os micro-organismos analisados, a bactéria Acinetobacter baumannii apresentou os maiores índices de resistência aos tratamentos disponíveis. As projeções apontam que até 2035 cerca de 82% das cepas poderão ser resistentes aos carbapenêmicos, considerados alguns dos antibióticos mais potentes da medicina moderna.

Outra preocupação é a bactéria Klebsiella spp., responsável por infecções urinárias, pneumonias e quadros de sepse. A expectativa é que a resistência dessa bactéria aos carbapenêmicos alcance aproximadamente 35% nos próximos anos.

Os pesquisadores também identificaram aumento significativo da resistência às cefalosporinas de terceira e quarta gerações, medicamentos amplamente utilizados em hospitais para tratar infecções graves em crianças.

Uso inadequado de antibióticos agrava problema

Especialistas apontam que o uso indiscriminado de antibióticos é um dos principais fatores responsáveis pelo avanço da resistência bacteriana.

A professora e pesquisadora Penelope Bryant, uma das autoras do estudo, destaca que países de baixa renda precisam ampliar o acesso a diagnósticos precisos e reduzir o uso inadequado desses medicamentos, além de investir em saneamento básico.

Já em países de maior renda, o desafio inclui controlar o uso excessivo de antibióticos na agricultura, na pecuária, nos hospitais e na atenção primária à saúde.

Como prevenir a resistência bacteriana

Para o infectologista Henrique Valle Lacerda, do Hospital Brasília, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente para combater o problema.

Entre as principais medidas estão:

  • Uso racional de antibióticos;
  • Vacinação em dia;
  • Diagnóstico correto e rápido das infecções;
  • Vigilância epidemiológica;
  • Controle rigoroso de infecções hospitalares;
  • Incentivo ao aleitamento materno;
  • Hábitos de higiene, como lavagem frequente das mãos.

Os especialistas reforçam que antibióticos combatem apenas infecções causadas por bactérias e não têm efeito contra vírus, responsáveis pela maioria dos casos de gripe, resfriado e outras doenças comuns na infância.

Brasil precisa fortalecer ações de controle

A pediatra Fernanda César, especialista em terapia intensiva pediátrica, avalia que o Brasil avançou no combate à resistência antimicrobiana, especialmente com a implementação do Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos (PAN-BR 2026-2030).

Apesar disso, ela destaca que ainda são necessários investimentos em programas de uso racional de antibióticos, ampliação do acesso a exames microbiológicos rápidos e fortalecimento da vigilância epidemiológica.

 

Segundo os especialistas, sem medidas efetivas, a resistência bacteriana poderá transformar infecções hoje consideradas simples em ameaças cada vez mais graves para crianças em todo o mundo. *com informações Correio Braziliense.



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