Redação
Apesar dos sinais positivos da economia brasileira no primeiro semestre de 2026, o ambiente de negócios continua desafiador para empresas de Mato Grosso. A combinação de juros ainda elevados, inflação persistente e os primeiros impactos da Reforma Tributária mantém a pressão sobre o caixa das organizações, especialmente das pequenas e médias empresas.
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam crescimento de 3,5% nos investimentos medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e expansão de 2,0% do agronegócio no período. Os números indicam que a economia segue em trajetória de crescimento, embora de forma desigual entre os setores.
Ao mesmo tempo, a Pesquisa Mensal do Comércio revelou um cenário mais cauteloso para o consumo das famílias. Em abril, as vendas do varejo recuaram 1,5%, registrando o pior resultado para o mês em quase quatro anos e acendendo um alerta para empresas que dependem diretamente da demanda do consumidor.
Em Mato Grosso, estado fortemente impulsionado pelo agronegócio, os reflexos desse cenário são percebidos de diferentes formas. Enquanto setores ligados à produção agrícola, logística, armazenagem e indústria de transformação continuam atraindo investimentos, comerciantes, prestadores de serviços e pequenos empresários enfrentam maiores dificuldades para crescer.
Para a economista Laís Requena, professora do curso de Economia da EAD UniCesumar, a realidade empresarial brasileira é marcada por diferenças significativas entre os segmentos.
“A saúde financeira das empresas neste fechamento de semestre é marcada por uma forte heterogeneidade. O cenário é de fragmentação entre empresas que ainda conseguem crescer e investir e aquelas que operam em modo de sobrevivência ou estagnação”, avalia.
Segundo a especialista, o desempenho positivo dos indicadores macroeconômicos não significa necessariamente melhora para todos os negócios. Empresas ligadas ao agronegócio, infraestrutura, tecnologia e logística continuam encontrando oportunidades, enquanto atividades mais dependentes do consumo interno enfrentam um ambiente mais restritivo.
Mesmo com o início da redução da taxa Selic, os juros permanecem em um patamar considerado elevado para o setor produtivo.
“Mesmo com o início do ciclo de redução da taxa Selic, ela permanece em um patamar restritivo, mantendo elevado o custo do crédito, do capital de giro e dos financiamentos para expansão”, explica Laís Requena.
O cenário faz com que muitas empresas priorizem a preservação do caixa e o equilíbrio financeiro, adiando investimentos em expansão, tecnologia e modernização.
Para pequenos e médios empresários, a situação é ainda mais sensível, já que o acesso ao crédito continua sendo uma ferramenta essencial para ampliação de estoques, compra de equipamentos e crescimento das operações.
Outro desafio enfrentado pelas empresas é a adaptação às novas regras da Reforma Tributária. Embora 2026 ainda seja considerado um período de transição, muitas organizações já começaram a investir em adequações internas para atender às futuras exigências do novo sistema.
As mudanças incluem atualização de sistemas de gestão, revisão de processos fiscais, adequação de documentos eletrônicos e treinamento de equipes.
Segundo a economista, esse processo gera um custo adicional para as empresas, que precisam se adaptar ao novo modelo sem deixar de cumprir as obrigações do sistema atual.
“O que tem pressionado fortemente o caixa das empresas é o chamado custo de conformidade. Isso inclui investimentos na atualização de sistemas ERP, adequação de documentos fiscais, revisão de processos e contratação de consultorias”, destaca.
Na avaliação de especialistas, empresas do setor de serviços poderão enfrentar desafios mais significativos durante a transição tributária. Segmentos como educação, saúde, tecnologia, consultorias e escritórios profissionais tendem a gerar menos créditos tributários dentro do novo modelo do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), o que pode resultar em aumento da carga tributária efetiva.
Em Mato Grosso, onde o setor de serviços cresce impulsionado pela expansão do agronegócio, da construção civil e da logística, a adaptação às novas regras será fundamental para manter a competitividade.
Apesar dos desafios, Mato Grosso continua ocupando posição estratégica na economia nacional. Líder na produção de soja, milho, algodão e proteína animal, o estado mantém um fluxo constante de investimentos em armazenagem, infraestrutura, energia, transporte e tecnologia aplicada ao campo.
Esse movimento fortalece toda a cadeia produtiva, criando oportunidades para empresas fornecedoras de produtos e serviços.
Segundo Laís Requena, áreas como tecnologia, automação, energia renovável, logística e infraestrutura seguem apresentando perspectivas favoráveis para os próximos meses.
Diante de um cenário marcado por juros elevados e mudanças tributárias, especialistas defendem que a gestão financeira passa a ser um dos principais diferenciais competitivos das empresas.
Mais do que buscar crescimento acelerado, o momento exige controle de custos, fortalecimento do caixa, revisão de contratos e acompanhamento constante das mudanças regulatórias.
“Se eu pudesse dar um único conselho seria: proteja o caixa antes de buscar crescimento. Em um cenário de juros ainda elevados, inflação persistente e mudanças tributárias em andamento, liquidez é um ativo estratégico”, recomenda a economista.
Os indicadores mostram que a economia brasileira continua avançando, mas os benefícios desse crescimento não chegam da mesma forma para todos os setores. Em Mato Grosso, o agronegócio segue como principal motor da atividade econômica, mas empresários de diferentes segmentos ainda enfrentam desafios relacionados ao crédito, ao consumo e à adaptação às novas regras tributárias.
Para especialistas, empresas que investirem em planejamento, produtividade, inovação e organização financeira estarão mais preparadas para aproveitar as oportunidades e enfrentar as incertezas do segundo semestre de 2026.
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