Em um ateliê iluminado pela luz natural, cercado por tintas, livros, telas e janelas abertas para a paisagem de Barra do Garças, a artista plástica Monica Lobo segue construindo uma trajetória marcada pela liberdade criativa, pela sensibilidade estética e por uma relação profunda entre arte e espiritualidade. Distante dos grandes centros culturais do país, a carioca Monica transformou o interior do Mato Grosso em território fértil para uma produção artística intuitiva, silenciosa e intensamente pessoal.
Sua relação com a arte começou cedo, dentro de casa. Filha de uma família repleta de artistas visuais, cresceu em um ambiente no qual a criatividade era estimulada sem imposições. Os pais incentivavam os filhos a seguirem os próprios caminhos, mesmo que fossem diferentes do convencional. E foi justamente esse espaço de liberdade que abriu as portas para sua vocação artística.
“Eles deixavam a gente escolher o rumo da vida. Se quiséssemos seguir algo diferente do que todo mundo fazia, estava tudo bem”, relembra. Ainda jovem, Monica frequentou cursos no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, onde teve contato com técnicas de desenho e gravura em metal. Apesar da importância do ambiente artístico efervescente, ela afirma que sua formação mais profunda veio através do professor Walter Marques, artista e mestre que considera fundamental em sua trajetória.
Na época, a artista planejava estudar nos Estados Unidos. Insatisfeita com o ensino de arte oferecido no Rio de Janeiro naquele período, acreditava que precisava sair do país para expandir horizontes. Mas o encontro com Walter mudou completamente seus planos. “Ele me preencheu completamente”, conta.
Monica desistiu daquela ‘mudança’ para mergulhar durante anos em um intenso processo de aprendizado ao lado do professor. As aulas aconteciam na casa de uma escultora, no Jardim Botânico, em um ambiente que ela descreve como “um mundo”. Foi ali que a arte deixou de ser apenas técnica e passou a ocupar todas as dimensões da vida.
Ao lado do marido, o arquiteto e também artista Dionísio Carlos, Monica viveu um período de intensa imersão criativa. O casal começou a namorar enquanto frequentava o curso, compartilhando descobertas estéticas e transformações pessoais. “A gente respirava arte o tempo todo”, lembra.
Mas foi justamente quando decidiu abandonar o eixo cultural do Rio de Janeiro que Monica encontrou sua expressão mais autêntica. A mudança para Barra do Garças, nos anos oitenta, aconteceu de maneira natural, movida por uma busca espiritual e existencial que transformaria também sua produção artística.
Ela conta que, inicialmente, nem imaginava que continuaria trabalhando com arte. A mudança representava uma ruptura com o mercado, com a lógica das galerias e com a própria ideia de carreira artística tradicional. No entanto, ao chegar à região do Roncador, percebeu que espiritualidade e arte eram inseparáveis. “Descobri que o espiritual estava junto com tudo”, afirma.
Foi no silêncio do interior, longe da agitação urbana, que sua obra ganhou novos sentidos. Monica rejeita definições rígidas sobre estilo. Transita entre o figurativo e o abstrato sem preocupação em seguir tendências ou atender expectativas do mercado. “Eu faço o que me dá na telha”, resume, entre risos.
Mais do que construir uma assinatura estética, ela busca traduzir sensações internas difíceis de verbalizar. Em suas palavras, a arte é uma tentativa de expressar beleza, harmonia, calma e silêncio, estados interiores que encontra na própria vivência cotidiana em Barra do Garças.

A energia mística da região aparece como elemento central dessa experiência. Para Monica, viver perto da natureza e distante dos grandes centros permite uma conexão mais profunda consigo mesma e com sua criação. “Se eu estivesse morando numa grande cidade, essa conexão seria muito mais difícil”, acredita.
Hoje, o ateliê da artista que divide com o marido Dionísio que, após se aposentar da arquitetura, passou também a se dedicar integralmente às artes plásticas. O espaço, conhecido como “ateliê de vidro”, tornou-se um ambiente de convivência, troca e criação compartilhada.
Ali, cada um ocupa seu universo particular: Monica pinta sob luz natural, cercada por cavaletes e grandes mesas cobertas de tinta, enquanto Dionísio trabalha em outra área sob luminárias artificiais, desenvolvendo desenhos e experimentações próprias. Entre diferenças e afinidades, o casal prepara agora uma exposição conjunta intitulada “Dionísio e Monica”, inspirada na música “Eduardo e Monica”, da Legião Urbana. “Uma hora eu sou o Eduardo, outra hora sou a Monica. E o Dionísio também”, brinca a artista.
A mostra de ambos pretende apresentar não apenas obras recentes, mas também fragmentos da trajetória construída ao longo dos anos. Monica gostaria de expor diferentes fases da produção artística, embora reconheça que o espaço talvez não comporte tudo o que gostaria de mostrar.
O processo criativo da artista também desafia clichês associados à ideia de inspiração descontrolada. Monica afirma que trabalha com rigor compositivo e planejamento cuidadoso.
Professora de composição artística, ela desenvolveu um olhar técnico refinado que organiza intuitivamente suas criações. “Eu tenho muito rigor na composição”, explica.
Apesar disso, o aspecto emocional permanece central. As obras surgem lentamente, guiadas por uma construção interna delicada e silenciosa. Esse mesmo olhar é compartilhado com dezenas de alunos através do curso “Enriquecer o Olhar”, projeto realizado por meio de incentivo cultural e que já chega à sexta edição. Gratuito, o curso oferece aulas de desenho, composição e análise de obras de arte, além de materiais para os participantes.
Mais do que ensinar técnicas, Monica busca transmitir ferramentas de percepção estética capazes de transformar a relação das pessoas com a arte e com o cotidiano.
A arte faz o interior crescer
afirma.
Durante a pandemia, ela levou o curso para o ambiente online e reuniu participantes de diferentes regiões do Brasil e até dos Estados Unidos. Muitos alunos relatavam que os encontros semanais funcionavam como espaços de respiro em meio ao isolamento social. O conteúdo do curso é inspirado justamente nos ensinamentos deixados por Walter Marques, numa espécie de continuidade afetiva e pedagógica do mestre que marcou sua vida. “Eu sinto que devo passar esse conhecimento”, diz.
Ao longo da conversa, Monica demonstra preocupação com os desafios enfrentados por artistas que vivem fora dos grandes centros urbanos. Para ela, a principal dificuldade é a formação de público e o fortalecimento de uma cultura de valorização da arte. Segundo a artista, Barra do Garças vive atualmente um momento fértil de produção cultural, com projetos importantes surgindo em diferentes áreas. Ainda assim, o público presente nas atividades artísticas continua pequeno. “Mas isso não pode parar”, defende.
Ela acredita que a continuidade das políticas de incentivo cultural é essencial para consolidar esse movimento e criar vínculos duradouros entre arte e comunidade. “Quando a arte começa a circular, a cidade muda de patamar”, afirma. Neste momento, Monica concentra suas energias na exposição ao lado do marido e na conclusão do curso intensivo que ministra até o fim de junho. Depois disso, pretende descansar antes de pensar nos próximos projetos.
Nos últimos anos, grande parte de sua rotina esteve voltada aos cuidados com a saúde de Dionísio, que enfrentou períodos delicados de internações e tratamentos médicos. Agora, com a melhora do companheiro, ela volta a encontrar espaço para pintar, ensinar e criar com mais intensidade. E talvez seja justamente aí que reside a essência de sua obra: uma arte construída não pela pressa do mercado, mas pelo ritmo profundo da vida. Uma criação que nasce da escuta interior, da contemplação e da permanência.
A artista plástica traz consigo a capacidade de dialogar com o seu tempo por meio de novas linguagens, materiais e formas de expressão. A inovação não se limita apenas à técnica, mas envolve também a maneira como a obra provoca reflexão, questiona padrões sociais, explora identidades, tecnologia, sustentabilidade ou experiências sensoriais. Monica transita entre diferentes mídias e por isso busca criar experiências mais imersivas e conceituais, além da autenticidade estética, sensibilidade crítica e a habilidade de transformar temas cotidianos ou complexos em algo visualmente impactante e intelectualmente relevante, mantendo uma produção que converse tanto com o público quanto com os debates culturais do presente.

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